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Autoria depois dos modelos de linguagem

Este é meu primeiro artigo escrito enquanto sou entrevistado por uma assistente baseada em um modelo de linguagem. Não é a primeira vez que uso essa tecnologia para pesquisar, verificar fontes ou polir um texto. Desta vez, porém, desenvolvo o pensamento em diálogo com ela: eu falo, ela pergunta, registra e sugere formulações; eu escolho o que permanece. O próprio artigo se torna um experimento sobre a pergunta que tenta responder: em que ponto esse texto continua sendo meu?

Talvez autoria nunca tenha sido a contagem das frases que saíram dos dedos de alguém. Uma pessoa pode escrever cada palavra de um texto sem tomar decisões relevantes sobre ele; pode também escrever poucas e responder por todas as suas consequências. Os modelos de linguagem tornam essa diferença mais visível. Talvez a fronteira da autoria esteja menos na origem das palavras do que na responsabilidade por aquilo que permanece.

Para tornar essa fronteira menos abstrata, é mais fácil começar pelo que reconheço como um texto meu. Ele parte de um argumento que reconheço como meu, ainda que eu tenha chegado a ele em diálogo com essa interlocutora. Eu participo do desenvolvimento, reviso o resultado e procuro nele a minha voz. Uma frase pode ter sido sugerida pelo modelo; a decisão de mantê-la, o que ela passa a sustentar e as consequências que aceito assumir continuam sendo minhas.

Minha voz não está necessariamente no primeiro rascunho. Está também no critério com que transformo esse rascunho até conseguir reconhecê-lo. Desde criança, meus textos partem de conflitos internos que não se resolvem neles. São repetitivos, inconclusivos, contraditórios e irritantes. A lapidação foi longe demais quando elimina essas tensões e deixa tudo limpo e conclusivo demais.

Um texto meu não precisa resolver o conflito. Precisa torná-lo legível. Posso terminar um dia convencido de que disse tudo e, no seguinte, perceber que ainda tenho muito a dizer — talvez o contrário do que está escrito. Chega um momento em que produzo minhas conclusões, mas preservo o infinito proposto pelo texto. O texto termina; o pensamento não.

É justamente porque reconheço o perigo de um texto limpo demais que não terceirizo a última leitura. O valor que encontro na assistente está em outro lugar: ela me dá cadência. Não a velocidade com que o modelo produz palavras, mas a continuidade que ela oferece para que eu permaneça tempo suficiente desenvolvendo um pensamento.

Com frequência, o que falta para um texto merecer publicação não é uma formulação mais elegante, mas mais desenvolvimento, mais crítica, mais tempo de pensamento, mais suor pingado sobre ele. A ferramenta não elimina esse trabalho; ajuda a manter o texto tempo suficiente debaixo dele.

No meu caso, parte dessa cadência vem da fala. Sempre tive curiosidade sobre como seria escrever usando aquele pequeno gravador de mão que vemos nos filmes. Meu vô Pedro me deu um quando eu era criança, mas nunca tive paciência para me ouvir depois e transcrever tudo. Falar é um excelente modo de escrever. Com o modelo, consigo desenvolver pensamentos pela fala sem o trabalho adicional exigido por aquelas tecnologias que agora parecem tão antiquadas.

Falar com uma máquina pode produzir cadência, mas não produz empatia. Continuo trabalhando sozinho; não chamo isso de trabalho em dupla. Uma pessoa não apenas auxilia ou secretaria o pensamento da outra: existe uma interação intimamente humana e uma construção afetiva de algo novo. Ela acompanha o processo sem compartilhar o que está em jogo.

Justamente porque a assistente não compartilha o que está em jogo, sua disponibilidade não basta. Ela pode sustentar a conversa apenas concordando comigo. Quando percebo isso, peço objeções, direções contrárias e conflitos dentro dos meus próprios argumentos. Uma boa interlocutora não devolve apenas o pensamento mais bem escrito; devolve o pensamento sob pressão.

Para que essa pressão tenha algum efeito, preciso estar disposto a reconsiderar minhas proposições independentemente da origem de um argumento. Se ele é bom e bem sustentado, o que importa é se encontro pensamento nele e consigo desenvolver algo novo em consonância com meus valores e meu jeito de pensar. Um pensamento não precisa ter surgido em isolamento para se tornar meu — posso pensar com ele, inclusive contra a pessoa ou o modelo que o formulou primeiro.

Essa abertura ao confronto não significa que esta entrevista tenha produzido uma conversão ou revelado uma ideia que eu ainda não soubesse que pensava. A novidade é que esses pensamentos nunca tinham aparecido juntos num texto meu. A entrevista não plantou a tese; colocou pensamentos antigos na mesma sala e deu a eles ocasiões para se declararem.

Reunir esses pensamentos, porém, não foi um processo passivo. Em vários momentos, a interlocutora tentou guiar minha resposta ou antecipou formatos e direções que não aceitei. Escolhi como responder e o que fazer com as sugestões e reformulações oferecidas. Minha participação aparece também na distância entre a pergunta que recebi e a resposta que decidi dar.

A entrevista se tornaria delegação excessiva se eu lhe entregasse não apenas formulações, mas a direção da argumentação: quais conflitos importam, quais objeções mudam a tese e quais conclusões estou disposto a sustentar. Neste texto, essas decisões continuaram sendo minhas.

Essa dificuldade de separar assistência de substituição não começou com os modelos de linguagem. Quando eu estava na escola, nos anos 1990, o corretor ortográfico do Word também parecia ameaçar a escrita. Havia o receio de que as crianças deixassem de saber escrever porque o corretor corrigiria sozinho. Hoje ninguém exige uma nota declarando que os erros de digitação de um artigo foram corrigidos pelo Word. O corretor entrou no processo de escrita sem tomar para si a autoria do texto. A comparação com esses modelos não resolve a questão — eles podem interferir muito mais —, mas lembra que já confundimos assistência com substituição antes.

Essa comparação leva a outra pergunta que atravessa este texto: qual é a diferença entre transparência e prestação de contas performática? Gosto quando um texto assinado por uma pessoa diz que foi produzido com auxílio de um modelo de linguagem ou do ChatGPT. Ao mesmo tempo, essa fórmula não revela o processo. Pode ser sincera e ainda participar de um ritual que não sabemos se queremos instituir.

O que essa nota conta ao leitor? O modelo corrigiu vírgulas? Propôs a estrutura? Encontrou uma objeção que mudou a tese? Escreveu tudo enquanto alguém apenas escolhia entre três versões? Usos radicalmente diferentes cabem na mesma declaração. A fórmula confessa a ferramenta e esconde o processo.

Tenho pensado em colocar ao final de cada texto um pequeno aviso explicando como um modelo de linguagem participou da escrita. Ainda não sei o que esse aviso precisaria contar para ser de fato transparente, nem quando ele começaria a parecer apenas uma prestação de contas esperada de mim. Talvez eu possa dizer onde a ferramenta entrou no processo — na pesquisa, no confronto das ideias, na estrutura, na formulação ou na revisão — e deixar que o leitor decida o que fazer com essa informação. É algo que eu gostaria de encontrar nos textos daqui para a frente, embora ainda não saiba se gostaria de transformá-lo em regra.

Talvez eu não espere que o leitor faça nada de diferente depois de ler o aviso. Transparência não é uma questão exclusivamente funcional; ela também está associada a valores. O fato de uma informação não produzir uma ação imediata não elimina seu valor.

Isso não quer dizer que o aviso não tenha função. Tempos de transição geram incertezas e medos, e esses medos às vezes preenchem sozinhos o que não sabemos. Se explico com algum detalhe como o modelo participou, também esclareço que não se trata de um texto inteiramente construído por ele — algo que eu mesmo não gostaria de ler. Talvez isso ajude a descatastrofizar o papel da ferramenta, porque devolve alguma proporção ao que de fato aconteceu.

Não tenho uma lista fechada de quais participações de um modelo de linguagem merecem ser declaradas. Uma correção gramatical não exige o mesmo grau de julgamento humano que uma objeção capaz de mudar a tese. Uma pesquisa pode ser iniciada, guiada e estruturada com auxílio dessa ferramenta, mas alguém precisa revisá-la e responder pelo que chega ao leitor. Como leitor, quero saber que existe uma pessoa por trás da produção criativa, responsabilizando-se pelas decisões que exigiam julgamento e pela relação com quem recebe o texto.

Essa responsabilidade chega até a decisão de publicar. Minha paralisia sempre esteve aí, não no pensamento ou no desenvolvimento de um texto. Tenho rascunhos de dez anos atrás que ainda pretendo publicar. Quando releio o que escrevi, muitas vezes considero a ideia crua, vaga, imatura ou simplesmente boba demais para merecer existir em público. A ferramenta pode me dar cadência para continuar trabalhando, mas não pode decidir por mim quando esse limiar foi atravessado.

O medo de publicar coisas bobas é o medo do olhar do outro: de ser visto como bobo ou como alguém que atribui ao próprio pensamento mais valor do que ele merece; alguém que pensa estar oferecendo algo inovador quando, na verdade, é banal. Meus pensamentos geralmente são banais, mas isso não reduz o valor deles.

Acho que esse é o novo experimento do blog. O que torna valioso que algo seja dito por mim é justamente que seja dito por mim. É a minha voz, a minha experiência; sou eu tentando me colocar no mundo de um jeito tão verdadeiro quanto consigo ser neste momento, com alguma ajuda de um modelo de linguagem. E, se for para ser banal, melhor ainda.